segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Viva Cristo Rei

A criação desta festa tinha uma conotação política de grandiosidade. Quem, dos mais antigos, não foi da Cruzada Eucarística? Roupinha branca, fita amarela com cruz e dois traços azuis para os melhores. Qual era o comprimento? - Viva Cristo! – Rei! Este amor a Cristo Rei sustentou os cristãos na perseguição do México. Quantos mártires não entregaram a vida proclamando: Viva Cristo Rei! Quem sabe nos falte uma definição maior para o Reino de Cristo. 

A oração da missa assim reza: “Deus que dispusestes restaurar todas as coisas em vosso Filho Amado, Rei do Universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade vos glorifiquem eternamente”. Vejamos os termos: Rei do Universo, vossa majestade. Para este sentido endereça a primeira leitura: A glória do Filho do Homem - “Seu poder é poder eterno que não lhe será tirado e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn l7,14). Cristo com sua morte e ressurreição foi feito o Senhor da Glória. Seu Reino não tem fim.

Rei da Verdade. 

Mesmo que seja um reino, o é diferente dos reinos e governos do mundo. Jesus se proclama rei diante de Pilatos: “Tu és Rei?” Pergunta Pilatos diante no tribunal. “Tu o dizes, eu sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (Jo 18,37). Jesus é rei da verdade. Pilatos pergunta-lhe: “O que é a verdade?” Mas não espera a resposta. (É comum em nossa vida perguntar as coisas para Deus e não querer saber a resposta). O que é esta verdade que é a identificação com Ele próprio? “Eu sou a Verdade e a vida” (Jo 14,6). Ser verdade para Jesus é ser Ele próprio o testemunho da vontade do Pai: Estabelecer no mundo o domínio da misericórdia amorosa da qual o Pai é a fonte. “Graças a esta vontade é que somos salvos” (Hb 10.10). Durante sua vida procura unicamente fazer a vontade do Pai: “E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia” (Jo.6,39). 

Um reino de sacerdotes. 

Todo povo de Deus tem, como Cristo esta realeza. Esta é o domínio do amor que transforma o mundo. O amor é a primeira fonte da união com Deus. Ele faz de nossos gestos de serviço aos outros, da transformação das estruturas de escravidão em liberdade, um sacerdócio do povo de Deus e de cada um que santifica o universo. Ser cristão é já construir o reino de Cristo no mundo. A modalidade de construir este reino é o serviço fraterno, humilde como Cristo fez na sua morte que o glorificou. Unindo nossa vontade à sua e a vontade do Pai, podemos crer em verdade que Ele é Rei e Senhor. 

Leituras: Daniel 7,13-14; Apocalipse 1,5-8; João 18,33-37 

Contexto: 

1. A festa de Cristo Rei, instituída por Pio XI, tinha uma finalidade político-religiosa de mostrar o senhorio de Jesus sobre o mundo, acima das situações de ateísmo e falta de religião. Esta festa foi colocada, na reforma litúrgica, no final do ano litúrgico para dar a perceber que Cristo é o centro do universo e para Ele tudo conflui. 

2. Cristo, diante de Pilatos se declara rei da verdade. Ele conhece toda a verdade, por isso dá por ela a vida. A verdade é o desígnio do Pai de implantar no mundo o reino da misericórdia amorosa. 

3. Todo o povo de Deus é sacerdotal, isto é, está unido a Cristo para a transformação do mundo em um mundo que sirva a Deus no culto verdadeiro que procede de um coração que ama.


Eduardo Rocha Quintella

terça-feira, 25 de setembro de 2012


Na Cruz, nossa identidade!

Mais que um simples símbolo, um sinal visual que nos identifica. Na cruz encontramos a nossa identidade de cristãos. Ela é o lugar do sacrifício, da entrega de Jesus por nós e também precisa ser o lugar da nossa experiência pessoal com Ele.


O símbolo adotado pelo Serviço Internacional da Renovação Carismática Católica (ICCRS), conhecido como “A cruz da Renovação” (The cross of the Renewal ), é extraído dos textos bíblicos de Jo 19,34 e 1Jo 5,6. O sangue (Lv 1,5+; Ex 24,8+) testemunha a realidade do sacrifício do cordeiro imolado para a salvação do mundo (Jo 6,51), e a água, símbolo do Espírito, sua fecundidade espiritual.  Na Cruz da Renovação, o símbolo da água que sai do lado aberto de Jesus crucificado, tendo na outra extremidade a imagem da pomba, quer explicitar a compreensão cristã neo-testamentaria  de que Jesus é o doador do Espírito e, por isso, a invocação na parte superior: Veni Creator Spiritus. “O Espírito é, pois, também pessoalmente a água viva que jorra de Cristo crucificado como de sua fonte e que em nós jorra em Vida Eterna”(Catecismo, n. 694). Nesse mesmo sentido, o pregador da Casa Papal, o frei Raniero Cantalamessa, escreveu:

 Quando invocamos o Espírito, não devemos olhar para o céu ou talvez para outro lugar; não é de lá que vem o Espírito, mas da cruz de Cristo! É ela a “rocha espiritual” da qual esta água misteriosa é derramada sobre a Igreja para dessedentar os crentes (cf. 1Cor 10,4). Como a chuva que desce do céu é recolhida no interior de uma montanha, até que encontra uma passagem para fluir, assim o Espírito, que durante a sua vida terrestre desceu e se recolheu todo em Jesus de Nazaré, sobre a cruz encontrou uma “passagem”, uma ferida, para derramar-se sobre a Igreja e ele pode dizer, referindo-se precisamente a este seu Espírito: Quem tem sede venha a mim e beba (Jo 7,37).

A imagem ajuda a colocar em evidência o dado teológico em que “a Páscoa de Cristo se realiza na efusão do Espírito Santo, que é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina: de sua plenitude, Cristo, Senhor, derrama em profusão o Espírito.” (Catec. 731).

De acordo com a narrativa feita por São Lucas nos Atos dos Apóstolos, a vinda do Espírito acontece no dia de Pentecostes, na sala do cenáculo, em Jerusalém (At 2,1-4). João evangelista também faz referência desse mesmo espaço como sendo o lugar em que Jesus “sopra” sobre os discípulos para que recebam o Espírito Santo (Jo 20,22). Esse mesmo evangelista, com sutileza teológica, parece querer nos presentar o calvário, ou mais precisamente, a cruz como lugar de onde acontece o derramamento do Espírito (cf. Jo 19,34). A cruz, dolorosa realidade, onde ocorre o sacrifício pascal do Cordeiro de Deus, é também e, sobretudo, “instrumento de redenção, de reconciliação e de aliança”.  O lenho seco da cruz, uma vez encharcado pelo sangue do Cordeiro e pela água que brota do coração aberto de Jesus, pode agora florescer, como árvore plantada à beira daquele rio que recebe suas águas da fonte que jorra do Templo, a que se referia o profeta Ezequiel no Antigo Testamento (cf. Ez 47,12). Sim, é do Templo-Corpo de Jesus Cristo (cf. Jo 2,21) que jorra a verdadeira água viva!

A LINGUAGEM DA CRUZ

“O sinal-da-cruz assinala a marca de Cristo naquele que vai pertencer-lhe” (Catec. 1235). Não há católico que não queira trazer consigo, de algum modo, uma cruz como sinal de sua catolicidade. O estranho é perceber que quando o sinal se transforma em realidade, muitos cristãos recusam-se a admití-la em suas próprias vidas. Quando o sofrimento bate à nossa porta e somos atingidos por alguma enfermidade ou quando as perseguições se levantam contra nós e nos tornamos alvo de humilhações, como reagimos?

É bem verdade não ser tão fácil entender “a linguagem da cruz” (1Cor 1,18). Há, ainda hoje, quem se escandalize com a cruz (cf. Gl 5,11). Quantas vezes ouvimos irmãos argumentarem em suas orações: “Por que comigo, Senhor? Eu sou teu servo. Tenho sido fiel em tudo o que o Senhor tem me pedido... Por que tenho que passar por esse sofrimento?” Parece que a cruz para alguns continua sendo apenas instrumento de suplício. Talvez ainda não tenhamos compreendido a linguagem redentora da cruz.

A cruz não é somente um objeto-sinal de identificação. Em seu sentido espiritual, ela representa o lugar do sacrifício, onde Deus, o Pai das misericórdias, demonstra todo o seu amor pela humanidade. A cruz é lugar de entrega. Deus Pai entrega o Filho; Deus Filho entrega o Espírito; Deus Espírito é dado para a humanidade. A cruz, lugar do sacrifício, torna-se então lugar da auto-entrega amorosa de Deus.
É comum, durante alguns momentos de oração, o dirigente nos convidar para que nos aproximemos da cruz do Senhor. De bom grado o fazemos. Mas, no dia a dia, quando a cruz se aproxima de nós com toda a sua verdade, queremos logo nos ver livres dela. O demônio foge da cruz, o cristão deve correr para ela. Muito sabiamente escreveu o autor do livro Imitação de Cristo: “Por que temes, pois, tomar a cruz pela qual se vai ao céu? Na cruz estão a salvação e a vida; na cruz a proteção contra nossos inimigos. E ainda: da cruz manam as suavidades celestiais; na cruz estão a fortaleza da alma, a alegria do coração, o compêndio da virtude, a perfeição da santida.” (Cap. XI-XII).

AMIGOS DA CRUZ DE CRISTO

O apóstolo Paulo repreendeu àqueles que se comportavam como se fossem “inimigos da cruz de Cristo” (Flp 3,18). Eram pessoas preocupadas somente em viver bem, na fartura dos alimentos, sob a aparência de perfeição, e que pensavam somente no que está sobre a terra (Flp 3,19). De fato, para quem tem depositado suas esperanças em Cristo somente para esta vida (1Cor 15,19), a cruz representa um inimigo a ser desprezado. Afinal, ela priva-nos de todo imediatismo e de qualquer desejo pelo gozo na riqueza temporal. Em sua horizontalidade, a cruz abraça os pobres, sofredores, injustiçados. Em sua verticalidade, fincada na realidade da terra, ou seja, da verdade da vida, ela aponta para o céu, lugar do Reino definitivo.

Perguntamos: onde se encontram os amigos de Jesus? Na multidão, enquanto os milagres acontecem, ou no calvário, junto de sua cruz? “Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do Cálice de sua paixão. Muitos admiram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz” (Im. Cristo, cap. XI). Enquanto estamos no meio da multidão, esperando por algum milagre ou até já desfrutando dele, aproveitemos para nos aproximar daquele que caminha para cruz: Jesus Cristo. É lá, no alto do calvário, junto à sua cruz que se consolida a verdadeira amizade.

Havia amigos de Jesus que não puderam estar no calvário no dia de sua crucifixão. Alguma coisa os impediram de estar lá. Nós não o sabemos. Pode ter sido o medo ou qualquer outra circunstância justificável. De qualquer forma, era preciso que em algum momento eles passassem pela cruz. Foi assim com os Apóstolos. Cada um, a seu modo, se tornou amigo da cruz. Tem sido assim na história dos santos que nos precederam. Chegou então a nossa vez de nos comportarmos como amigos da cruz de Cristo! A água do Espírito que recebemos por meio do batismo deve trazer-nos coragem para sustentar na própria vida o sinal-da-cruz. E sempre que formos introduzidos em algum novo calvário, façamos daquele lugar, lugar de experiência de Deus. Aproveitemos para beber nesse momento, não do fel que nos privaria de sofrer com Jesus, mas da água que continua a brotar do lado aberto de Nosso Senhor, da água da vida: o Espírito Santo.

EM DESTAQUE

“De fato, para quem tem depositado suas esperanças em Cristo somente para esta vida (1Cor 15,19), a cruz representa um inimigo a ser desprezado”

“Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do Cálice de sua paixão. Muitos admiram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz”

 Rogério Soares
Coord. Estadual da RCC-SP e Coord. do Grupo de Reflexão Teológico Pastoral RCC-Brasil

segunda-feira, 11 de junho de 2012


Só a radicalidade tem sentido


“ Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: ‘Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe,sua mulher,seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, sim, até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo. Quem de vós querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, afim de ver se tem com que acabá-la? Para que,depois que tiver lançado os alicerces, e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele,dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar. Ou qual é orei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
O sal é uma coisa boa; mas se ele perder o sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para o adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir, ouça!”

 Naquela época, a radicalidade evangélica era – como será sempre em nossa vocação – essencial. Além de essencial, porém, era viva, muito viva. Viva e vivenciada sem descuido, à risca. Significava, antes de qualquer coisa, uma verdade evidente, embora tantas vezes descurada:
Seguir Jesus é deixar tudo e todos. Deixar todo o resto.
Deixar todos os outros que não Ele.

 Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
 Como isso era vivo para nós, os primeiros! Éramos os primeiros a sermos chamados a, literalmente, deixar para trás pai, mãe, mulher, marido, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida. Ninguém antes de nós havia deixado tanta coisa para uma aventura completamente inesperada.
Hoje, sabemos muito bem o que é uma Comunidade Nova. João Paulo II falou desta realidade no Pentecostes de 98 em plena Praça de São Pedro e em seus documentos. A Igreja, hoje, reconhece várias comunidades novas a nível pontifício e a nossa está em processo de reconhecimento. Nosso fundador é convidado para o Sínodo sobre Eucaristia, para importantes eventos no Pontifício Conselho dos Leigos e para o lançamento do documento papal Deus Charitas Est.
Naquela época, iniciávamos uma aventura rumo ao desconhecido. Não sabíamos para onde estávamos indo, nem se a Igreja nos acolheria. Pelo contrário, por toda parte nos chamavam de loucos e setores da Igreja, alguns muito ligados a nós, desencorajavam nossa opção e não nos poupavam de perseguições e falatórios.
Deixávamos tudo por uma incerteza. Trocávamos nossos queridos por uma incógnita. Abandonávamos nossos estudos e trabalhos por uma aventura. Era isso, sim, mas aos olhos dos homens. Aos olhos de Deus – e, creia, naquela época estávamos cheios de Deus, cheios de entusiasmo, dispostos a dar a vida por Jesus! – aos Seus olhos e aos nossos, deixávamos todos e tudo por... Jesus, o Ressuscitado, o Cristo Vivo que havíamos experimentado no Batismo no Espírito Santo e que, através do Moysés nos propunha um seguimento radical, ainda que não soubéssemos para onde íamos ou se receberíamos alguma coisa em troca do que havíamos deixado. Era a fé a nos dar a certeza do incerto; a esperança a nos dar a certeza de que Deus tinha planos para nós, a caridade a queimar nosso coração de amor esponsal.
A exigência de Deus era clara: era preciso deixar tudo. A pregação do Moysés, muito explícita: a vocação Shalom exigia o deixar tudo, supunha o seguimento radical de Jesus Cristo. E isso ele pregava veementemente ungido, na pequena sala da República do Líbano para os seus cinco primeiros discípulos.
E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.
Como sempre, estava presente a eterna discussão acerca do que seria esta cruz. Em sua pregação, o Moysés deixava claro: era crucificar nossos planos, nossos desejos, nossa vontade, nossas afeições desordenadas, nosso amor a nós mesmos; crucificar tudo o que não fosse Jesus. Carregar tudo isso como uma cruz, renunciando a todo direito pelo privilégio incomparável de ser discípulo de Jesus.
Hoje em dia, de vez em quando me pego a comparar a qualidade do seguimento de Jesus que eu tinha naquela época e que tenho hoje. Que diferença! Hoje, cercada de seguranças, será que ainda é por Jesus que deixo tudo? Será que ainda carrego a cruz de morte de minha carne, desejos, planos, vontade, afeições desordenadas, amor a mim mesma? Cercada de milhares de irmãos pelo mundo inteiro, contando com o aval da Igreja e o reconhecimento da RCC, ainda vivo a radicalidade evangélica que requer absolutamente a prioridade radical de amor a Jesus Cristo deixando tudo e todos para trás?
Hoje, paparicada em meio a palestras, cursos, livros, rádio, tv, ainda mantenho a radicalidade de deixar tudo, absolutamente tudo para ser unicamente de Jesus e para segui-lo radicalmente, isto é, para ser radicalmente igual a ele? Cercada pelas estruturas da Obra e da Comunidade, tendo a identidade do Carisma melhor definida, com os pés nos Estatutos e nas Regras reconhecidas, já sabendo de onde vim e para onde vou, mantenho o mesmo nível de radicalidade, de amor esponsal, de desejo ardente de ser pobre como Jesus, casta como Jesus, obediente como Jesus, Paz como Jesus?
A grande surpresa da pregação do Moysés, entretanto, viria com o texto a seguir. Aliás, foi por este trecho que ele iniciou seu ensino, só depois voltando ao início da passagem. Vejamos:
Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários a fim de ver se tem com que acabá-la? Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar. Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.
Tínhamos muito em mente que nos metíamos em uma batalha espiritual que duraria enquanto vivermos. O Moysés, por sua vez, deixava claro quem eram os inimigos que iríamos combater: a nós mesmos, nossa carne, nossos desejos, nosso amor próprio, nossos planos, nossas concupiscências, nosso desejo de ser como o mundo, nossa vontade de voltar atrás. Seria uma batalha desigual: dez mil contra vinte mil do inimigo.
“Quem amar a si mesmo”, dizia ele, “mesmo que seja só um pouco, não tem chances de vencer a batalha. Vai ter sempre a tentação de enviar embaixadores ao inimigo para conversações em vistas de uma falsa paz, de uma paz passageira que o inimigo e o mundo podem dar. No entanto, quem decidir não amar a si mesmo acima de Jesus, do mundo e de seus queridos, continuará na batalha, mas encontrará a Paz que é o próprio Jesus e que só ele dá. Cristo é a nossa paz!”, finalizava ele, citando passagem que, na época tínhamos como o texto de nossa vocação, uma vez que o Espírito não nos havia ainda inspirado e explicado Jo 20,19, o que só viria a ser registrado quando da elaboração dos Estatutos.
Hoje, vinte anos depois, é fácil constatar como ele tinha razão e como era profético seu ensinamento. Vemos que aqueles que antes de entrar para a comunidade tomaram a decisão pelo seguimento radical de Jesus Cristo têm nela o alicerce de sua casa e a vitória de sua batalha. Muitos, porém, que entram por fantasia ou com outras motivações, não terminaram de construir a casa ou acabam por contemporizar com o inimigo e com o mundo. Pouco a pouco os projetos pessoais, os desejos não crucificados, a amizade com os valores do mundo corroem seus poucos tijolos e tiram a força de seus soldados.
Uma blusa com ou sem manga, uma comunhão de bens doada ou retida, uma saída à noite para um lugar devido ou indevido, de per si parecem inofensivos. Vistos sob a perspectiva da radicalidade evangélica que nossa vocação exige, porém, tornam-se arma de batalha, argamassa forte que une tijolos sem deixar brechas. Uma simples renúncia a uma cava, à compra de um bem supérfluo, a uma diversão mundana, pode fazer a tremenda diferença entre uma vocação vivida até o final da vida ou abandonada pela metade da caminhada.
Decidir-se a não contemporizar ou, para utilizar a linguagem de São Paulo, não ter amizade com o mundo, com nossos projetos pessoais, com nossa carne, com as concupiscências, é o passo essencial para quem quer viver a vocação Shalom que exige, absolutamente, a radicalidade evangélica. Sem a radicalidade evangélica, sem o seguimento radical de Jesus em sua maneira de viver, em sua pobreza, obediência, castidade não existe a vivência da vocação Shalom. Sem seguir radicalmente a Jesus em sua incansável parresia; em seu tomar a cruz, renunciando, ao tomá-la por amor, a todos os seus direitos de Deus e de homem, não se vive a vocação Shalom.
A grande tentação é contemporizar. Tentar harmonizar o seguimento de Jesus e os projetos pessoais, gostos, desejos, reivindicações de direitos, desobediência velada, pobreza aparente, castidade mitigada. Sim, esta é a grande tentação. Ela começa a aparecer sorrateiramente, disfarçada de boas intenções e se instala em uma vivência morna e mitigada que ameaça a vocação de todos. Tudo o que é morno, tudo o que é mitigado, tudo o que é contemporizado vai de encontro à nossa vocação. Isso o Moysés já havia deixado bem claro ao escrever Obra Nova com sua admoestação aos covardes e sua exortação à radicalidade e à renúncia até o sacrifício dos belos galhos verdes.
Nos inícios, era bem mais fácil enxergar os perigos, contar os dez mil inimigos que ultrapassavam nossas tropas, contabilizar a quantidade de tijolos, medir a resistência dos alicerces. Com o crescimento da comunidade, tudo isso se dilui e nos coloca na contingência da re-escolha da radicalidade absoluta. Como finalizou o Moysés, há vinte anos:
Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
Você não conseguiria ouvi-lo dizer:
“Assim, pois, isto é, desta forma e somente desta forma, não de outra forma, mas desta forma, qualquer um de vós – qualquer um, você ou eu, qualquer um de nós – que não renuncia a tudo, tudo, não a metade, não a uma parte, mas tudo, tudo o que tem, tudo o que é... tudo! Não pode ser discípulo de Jesus. Não tem como segui-lo. Não tem como ser como Ele, que deixou tudo para seguir a vontade do Pai. Não tem como viver a magnífica vocação que Nosso Senhor nos deu! Esta vocação exige, exige a radicalidade evangélica, exige o sacrifício de nós mesmos, de tudo o que somos e temos, exige o seguimento radical de Jesus Cristo Nosso Senhor.
Por isso, pense bem antes para não desistir depois. Conte seus tijolos, verifique sua argamassa, conte suas tropas e jamais, jamais contemporize com o mundo, com a carne, com o mal, com você mesmo! Jamais! Do contrário, o sal perderá o seu sabor, pois:
O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora.
Não percamos nosso sabor. Ele não é nosso. É de Deus. É Deus quem no-lo dá. Não percamos a radicalidade evangélica. Do contrário, nossa vocação não servirá para a nada, nem para nós mesmos, nem para a humanidade e acabaremos, nós mesmos, por lançá-la fora, por desperdiçá-la tristemente.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Amém. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Emmir Nogueira
Co-Fundadora da Comunidade Católica Shalom

segunda-feira, 5 de março de 2012


Precisamos do Espírito Santo.


Que é o homem sem o Espírito de Deus? Obra morta condenada ao fracasso, corpo sem vida. É o Espírito Santo que possibilita ao homem a reinstalação no paraíso, a subida de novo aos céus, o retorno a adoção de filho. Ele que nos permite chamar Deus de Pai, que nos faz adentrar no mistério de Cristo morto e ressuscitado, nos faz tomar parte na glória.
Esta é a mística de Pentecostes: Deus em nós! O Espírito de Deus é enviado ao nosso espírito. Isto é a graça! Deus mora em nós e nos possibilita a viver como homens espirituais!
Ele é o Consolador perfeito e o Advogado dos pobres! O ardor poderoso do Espírito retira as almas tíbias do abismo da morte. Ele é, conforme a mais antiga definição de fé da Igreja, o “Senhor que dá a Vida”.
Espírito escondido na criação, anunciado pelos profetas, prometido por Cristo é o mesmo Espírito derramado em abundância sobre os apóstolos e a Igreja que nascia como nos descreve o Livro dos Atos dos Apóstolos. Pentecostes não acabou! É um movimento divino permanente! Enquanto houver um homem que precise da força de Deus, o Espírito deseja ser derramado sobre esta alma. Espera apenas um convite: “Vem!”
Nossa união com o Espírito Santo é absolutamente real, a tal ponto de tornar-se Ele verdadeiramente “nosso”. Ser movido pelo Espírito é, com efeito, atingir uma intimidade com Cristo e o Pai, que de outra maneira nunca seria adquirida. É preciso aproveitar este derramamento do Espírito e este tempo pentecostal que vivemos tão fortemente na Igreja de Cristo no início deste novo milênio. Visitados, inundados e transformados pelo Espírito queremos sempre permanecer.  Como a Beata Elena Guerra, queremos orar: “Que minha vida seja um constante nascer e renascer no Espírito”.
Aproveite bem o Pentecostes que Deus vai derramar este ano sobre você. Este é o meu desejo!
Pe. Dudu

quinta-feira, 1 de março de 2012


Os desejos do nosso coração

 “Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá.”Sl 36,4
Muitas vezes, quando lemos esse versículo do salmo, pensamos que ao colocarmos no Senhor a nossa alegria e gratidão, Ele vai atender nossos desejos e realizar nossos sonhos e, muitas vezes, Ele faz isso mesmo. Mas, o que esse versículo expressa é muito mais do que apenas isso. Não se trata aqui de nos alegrarmos no Senhor e depois fazer tudo o que queremos, é muito mais bonito e mais profundo do que isso. Se nós colocarmos nossas delícias no Senhor, se fizermos Dele a alegria da nossa vida, então Ele mudará o nosso coração para que os nossos desejos se tornem os Dele. Em outras palavras, Ele colocará seus desejos em nosso coração. Nós precisamos disso na nossa vida, pois os nossos desejos, às vezes, são vãos, são gerados pelo pecado em nós ou são limitados e pequenos.
Os desejos do Senhor para a nossa vida são perfeitos, porque fazem parte do seu plano de amor para nós. Eles são infinitamente superiores e mais bonitos do que tudo o que podemos imaginar, como nos diz a passagem em Isaías 55, 8-9: Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos.
Li, certa vez, um testemunho bonito de David Mangan sobre esse versículo bíblico. Ele é um dos que estavam em Duquesne naquele fim de semana do início da Renovação Carismática e até hoje ele continua cheio do Espírito, frequentando Grupo de Oração, pregando a Palavra de Deus e dando bom testemunho. David disse que esse versículo significa muito para sua vida pois enquanto ele se deliciava com o Senhor, buscando fazer sua vontade,  se apaixonou por aquela que hoje é sua esposa. Então, conforme sua compreensão, o desejo, o amor que começou a sentir por ela foi colocado no seu coração pelo Senhor. Por isso, ele mandou gravar esse versículo nas suas alianças, para nunca se esquecer de quem sua esposa é para ele: desejo de Deus colocado no seu coração.
Que possa ser assim também conosco. Coloquemos todo o nosso amor, o nosso louvor, a nossa confiança no Senhor, passando todos os dias um tempo em oração com Ele, deliciando-nos na sua presença e deixemos que Ele vá colocando os seus desejos no nosso coração e teremos assim a nossa vida grandemente abençoada.
Fonte: RCC Brasil

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012



Lealdade a Cristo, lealdade ao irmão

“Por isso não desanimamos desse ministério que nos foi conferido por misericórdia. Afastamos de nós todo procedimento fingido e vergonhoso. Não andamos na astúcia, nem falsificamos a palavra de Deus. Pela manifestação da verdade nós nos recomendamos à consciência de todos os homens diante de Deus.” (2Cor 4, 1s)

No mundo atual, as pessoas são muito desleais, fingidas, falam umas das outras pelas costas, acusam-se mutuamente, condenam-se mutuamente. Quem acusa é o demônio. O livro do Apocalipse, no capítulo 12, versículo 10 diz que ele nos acusa dia e noite diante de Deus. Ele é o pai da mentira e do fingimento, portanto, sempre que formos astutos e fingidos estaremos nos submetendo ao demônio ao invés de nos submetermos ao Senhorio de Jesus. Afinal, quem nós queremos que seja o Senhor de nossas vidas?
O demônio nos acusa, mas Jesus nos defende: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo, mas eu roguei por ti para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos”. (Lc 22, 31)
Nessa passagem do evangelho de Lucas, Jesus se revela como nosso intercessor diante das acusações do inimigo, mas Ele também nos exorta a fazermos o mesmo quando nós virmos os nossos irmãos sendo atacados, denegridos, acusados. Jesus diz: “E tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.” Em outras palavras, Ele nos pede para sermos defensores uns dos outros, para sustentarmos uns aos outros, mostrar uns aos outros a quem realmente pertencemos.
Sempre que formos leais, verdadeiros, advogados de defesa dos outros e não de acusação, então a luz de Deus ilumina a nossa vida e sentimos muita liberdade e muita alegria.
Certa vez, li o testemunho de um pregador americano, numa revista. Esse homem dizia: “Deus sempre atende as minhas orações e isso tem acontecido desde que eu, em obediência à palavra de Deus, resolvi nunca mais acusar ninguém, mas pelo contrário, sempre procurar defendê-las e dizer algo de bom sobre elas para abençoar suas vidas com minhas palavras”. Lendo seu testemunho, lembrei-me da segunda carta de Pedro que diz: “Abençoai, pois para isto fostes chamados, para que sejais herdeiros da bênção. Com efeito, quem quiser amar a  vida e ver dias felizes, refreie sua língua do mal e seus lábios de palavras enganadoras; aparte-se do mal e faça o bem, busque a paz e siga-a”. (2Pd 3, 9b-11)
Nesta semana, meditemos na palavra “lealdade”, procuremos fazer da lealdade a Jesus Cristo, ao seu evangelho e aos outros a nossa meta de conversão. Sinto que, da mesma forma que aquele pregador americano, teremos muitos testemunhos de orações respondidas para dar.
Fonte: RCC Brasil

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


Você é um plano de Deus

 “Foi-me dirigida nestes termos a palavra do Senhor: Antes que no seio materno fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado e te havia designado profeta das nações.” Jr 1, 4-5
Quando Deus nos criou, Ele nos deu também um plano de amor para a nossa vida. Cada um de nós é um plano de Deus. Se este plano que Deus tem para a sua vida não for realizado por você, ninguém mais vai realizá-lo, porque ele é seu, é único, é intransferível.
Deus nos chama para viver a nossa vida dentro de seu plano de amor. Às vezes, Ele nos pede coisas que vão além das nossas capacidades humanas. O plano de amor de Deus para alguns envolve viver com familiares difíceis ou enfrentar dificuldades na área da saúde, das finanças, dos relacionamentos, mas é através desse plano de amor que Deus vai nos levar à salvação, nossa e das pessoas que nos cercam. Na verdade, de todos nós Deus pede coisas que vão além de nossas forças: amar os inimigos, abençoar os que nos maldizem, perdoar quem nos ofende e muitas outras coisas difíceis de realizar.
Por que o Senhor nos pede coisas que humanamente não podemos realizar?  Jesus disse aos apóstolos: “Se eu não for não virá sobre vós o Espírito Santo.”(cf Jo 16,7) Nossa capacidade para realizar coisas difíceis vem de Deus, vem do Espírito Santo, a Força do Alto que Deus nos envia.
Quando o Senhor pediu a Maria para ser a mãe do Messias, isso parecia impossível e ela disse: “Como isso será possível?” O Anjo respondeu: “Não temas. Isso se fará pelo poder do Espírito Santo.” (cf Lc 1, 35)                    
 O segredo é ter comunhão contínua, constante com o Espírito Santo e tudo o que parece impossível se tornará possível.
São Tomás Aquino nos ensina que para cada novo chamamento de Deus, uma porção nova do Espírito nos é dada. Quando o Espírito Santo gerou Jesus no ventre de Maria, Ele a cobriu com sua sombra e deu a ela uma nova unção para que pudesse cumprir com seu papel de mãe do Salvador. Essa unção veio a Maria porque ela rendeu-se à vontade de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc1, 38)
Quando de todo coração nós nos rendemos à vontade de Deus, vem a unção para que possamos cumprir com sua vontade.  “Quanto a vós, a unção que dele recebestes permanece em vós. E não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, assim ela é verdadeira e não mentira.” I Jo 2, 27.
Com essa certeza de que o Espírito Santo nos capacita a cumprirmos o plano de Deus para a nossa vida, podemos ir com alegria viver o nosso chamado. Não estamos sozinhos, Deus mesmo nos assiste com a sua graça.
Fonte: RCC Brasil

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


Quem busca Jesus sem a cruz, encontrará a cruz sem Jesus






"Seria totalmente equivocado pensar que este amor por Cristo está em competição com os diferentes amores humanos..."
Esta passagem do Evangelho é uma dessas que dão a tentação de se amenizar por parecer demasiado dura para os ouvidos: "Se alguém vem até mim e não odeia seu pai, sua mãe...". Antes de tudo há algo a esclarecer: ertamente o Evangelho é em certas ocasiões provocante, mas nunca contraditório. Pouco depois, no mesmo Evangelho de Lucas, Jesus recorda com a força o dever de honrar ao pai e a mãe (Cf. Lucas 18, 20), e a propósito do marido e da mulher, diz que tem de ser uma só carne e que o homem não tem direito de separar o que Deus uniu. Então, como pode dizer-nos agora que há que odiar o pai e a mãe, a mulher, os filhos e os irmãos?

Deve-se ter em conta um fato. Em hebraico não há comparativo de superioridade ou de inferioridade (amar a alguém mais ou menos que a outra pessoa); simplifica e reduz todo o "amar" ou "odiar". A frase "se alguém vem até mim e não odeia seu pai e sua mãe" deve ser entendida, portanto, neste sentido: "se alguém vem até mim sem preferir-me a seu pai e a sua mãe". Para dar-se conta disto basta ler a mesma passagem do Evangelho de Mateus onde diz: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim" (Mateus 10, 37).

Seria totalmente equivocado pensar que este amor por Cristo está em competição com os diferentes amores humanos: pelos pais, o cônjuge, os filhos, os irmãos. Cristo não é um "rival no amor" de ninguém e não tem ciúmes de ninguém.

Na obra "O sapato de cetim", de Paul Claudel, a protagonista, cristã fervorosa mas ao mesmo tempo loucamente enamorada de Rodrigo, exclama interiormente, como se lhe custasse crer em si mesma: "Portanto, está permitido este amor pelas criaturas? Verdadeiramente Deus não tem ciúmes? E seu anjo da guarda lhe responde: "Como poderia ser ciumento do que fez ele mesmo?" (ato III, cena 8).

O amor por Cristo não exclui os demais amores, mas que os guarda. E mais, nele todo amor genuíno encontra seu fundamento, seu apoio e a graça necessária para se vivido até o final. Este é o sentido da "graça de estado" que confere o sacramento do matrimônio aos cônjuges cristãos. Assegura que, em seu amor, serão apoiados e guiados pelo amor que Cristo teve por sua esposa, a Igreja.

Jesus não faz ilusões a ninguém, mas tampouco desilude; pede tudo porque quer dar tudo; e mais, já o deu todo. Alguém poderia perguntar-se: mas como pode este homem, que viveu há vinte séculos em um lugar perdido do planeta pedir-nos este amor absoluto? A resposta, sem necessidade de remontar-nos muito longe, se encontra em sua vida terrena que conhecemos pela história: Ele foi o primeiro a dar tudo pelo homem: "Cristo nos amou e se entregou por nós" (Cf. Efésios 5, 2).

Nesta mesma passagem do Evangelho, Jesus nos recorda também qual é o teste e a prova do verdadeiro amor por ele: "carregar a própria cruz". Carregar a própria cruz não significa buscar sofrimentos. Cristo tampouco se pôs a buscar sua cruz; em obediência à vontade do Pai, carregou-a sobre si quando os homens se lhe puseram em suas costas, transformando-a com seu amor obediente de instrumento de suplício em sinal de redenção e de glória. Jesus não veio para aumentar as cruzes humanas, mas para dar-lhes um sentido. Com razão, se disse que, "quem busca Jesus sem a cruz, encontrará a cruz sem Jesus", ou seja, de todos os modos encontrará a cruz, mas sem a força para carregá-la.

Frei Raniero Cantalamessa

sábado, 4 de fevereiro de 2012


O dia seguinte de Nossa Senhora

“...mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo.” (At 1, 8)
Muitos de nós já nos encontramos diante de situações de nossas vidas em que fomos tomados de uma tristeza tão profunda, tão avassaladora que desejaríamos não ter mais que continuar vivendo e nos esforçando. Eu mesma, depois de enterrar um ente querido, senti vontade de ficar sentada ali ao lado do túmulo e não fazer mais nada. Mas, nessa hora, me veio à mente a imagem de Nossa Senhora e fiquei pensando no dia seguinte ao da crucificação e morte de Jesus.
A Bíblia não nos relata como foi esse dia, o que ela fez, o que disse, o que pensou. Mas uma coisa nós sabemos: cinquenta dias depois ela estava reunida com os apóstolos e discípulos de Jesus, no Cenáculo, perseverando em oração, esperando o cumprimento da promessa. Em virtude do dia de Pentecostes, eu imagino como foi o dia seguinte de Maria, nossa Mãe e modelo de verdadeira cristã. Imagino que ela tenha acordado e, diante da imensidade de sua dor, tenha resolvido rezar, reafirmando a sua entrega a Deus, dando a Deus, na oração, o espaço que lhe cabia na sua vida, isto é, o lugar de Senhor. Imagino que Maria pediu ao Espírito Santo para novamente cobri-la com sua sombra e tomar conta de todo o seu ser. Eu acredito que o Espírito Santo Consolador tenha consolado seu coração.
Gostaria de lembrar aqui que a consolação do Espírito é uma consolação dinâmica, sempre em movimento, movimento de amor como o próprio Espírito, é uma consolação que dá força e dá paz, uma consolação que renova e restaura. Se Nossa Senhora não tivesse, no primeiro momento, se colocado na presença de Deus em oração, reafirmando seu senhorio sobre sua vida, provavelmente não teria chegado ao dia de Pentecostes. No momento da dor profunda, o convite para mergulhar na dor e no desespero é muito tentador, mas Nossa Mãe Santíssima nos ensina a mergulhar no amor, mergulhar em Deus.
Aprendamos com Maria. Não é fácil dar testemunho autêntico de que somos cristãos católicos, carismáticos (isto é, conduzidos pelo Espírito), na nossa vida diária, nas nossas dores, nos nossos problemas, nas nossas perdas, mas não é impossível. Nossa Senhora nos ensina que para Deus nada é impossível. Para conseguir continuar vivendo no testemunho autêntico de nossa fé cristã, devemos dar a Deus o espaço que lhe cabe na nossa vida, temos que renovar o nosso interior, na oração, no encontro pessoal com Jesus Cristo, dia a dia. Então, ao abrir o nosso coração a Deus, o Espírito Santo vem e nos dá força, essa força poderosa do alto que nos capacita a sermos testemunhas. A pessoa renovada é forjada pelo Espírito Santo da mesma forma que no aço é forjado para adquirir têmpera. Quando, no meio da dor e tribulação, permanecemos firmes em Deus e na nossa fé, o Espírito Santo nos fortalece, nos torna firmes como o aço, não permitindo que sejamos dobrados pela dor. “A fornalha experimenta as jarras do oleiro; a prova do infortúnio, os homens justos.”(Eclo 10, 13)
Esse é o nosso desafio, enfrentar os problemas e situações da vida manifestando os frutos do Espírito Santo. Da próxima vez que estivermos no dia seguinte a um acontecimento doloroso da nossa vida, pensemos em nossa Mãe Maria no dia seguinte à crucificação de Jesus. Que ela nos ajude e rogue por nós para que possamos ser reconhecidos como seus filhos pelo fato de sermos parecidos com ela na maneira como nos portamos diante dos desafios de nossas vidas.
Por: RCC Brasil

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

 O Espírito Santo está na moda?
Certo dia, ao ligar a TV, vi o primeiro capítulo de uma novela transmitida em horário “nobre”. Na cena que assisti, uma atriz muito conhecida usava ao pescoço uma medalhinha redonda que continha ao centro a figura de uma pomba. Pensei com meus botões: "Essa medalhinha vai virar moda!" Dito e feito! Passados alguns dias, não é que várias pessoas já estavam usando uma medalhinha idêntica! E olha que moro no interior, onde as novidades demoram um pouco a chegar. Fiz uma pesquisa muito “profunda” com as “peruas” de plantão sobre este ato de usar tal objeto. Todas foram unânimes ao dizer que tal figura está “na última moda...” E acrescentaram que, também, “tá” na moda colocar o “Divino” na porta de casa. Fui verificar algumas casas e também constatei a veracidade do que diziam: muitas casas com a figura de uma pomba entalhada na madeira, de gesso ou de resina nas portas principais das casas.
Todas estas constatações levaram-me ao devaneio utópico de que, com a mesma ânsia com que as pessoas usavam este  que é um dos símbolos do Espírito Santo, a saber, a pomba¹, também O vivenciassem numa experiência profunda de Deus. A experiência do Espírito não é uma vivência atemporal, que somente uns poucos “privilegiados” tiveram a oportunidade de usufruir. Os que fizemos tal experiência suplantamos uma resposta imediata e irrefletida à presença e atuação desta Pessoa trina com muito louvor dirigido à majestade de Jesus, à glória de seu soberano domínio, ao triunfo de sua ressurreição vitoriosa, à sua solicitude². Mesmo que muitos duvidem de inúmeras evidências, não se pode desacreditar da atuação prodigiosa do Espírito Santo em nosso tempo como no tempo dos Atos dos Apóstolos.
Embora a utilização de objetos externos,sem saber exatamente o que representam,seja uma prática muito comum, as pessoas que se utilizam de tais símbolos, têm a vaga noção de que “aquilo” é coisa boa, do bem.
Sinceramente, gostaria que o Espírito Santo realmente fosse moda. Não na exterioridade, mas no íntimo, no interior de cada ser vivente. A começar por todos que são assíduos na fé como também as outras pessoas que “usam” porque está na moda, sem ao menos saber o teor de tal uso. O Espírito Santo desceu sobre Jesus e O ungiu como tinha prometido aos profetas, a fim de que nós pudéssemos haurir da plenitude de sua unção e assim sermos salvos. ³
A simbologia do Espírito Santo nas Sagradas Escrituras é bem ampla, contudo a maioria O vê como “pomba”. O Espírito Santo é aquele que, depois do batismo ,desceu sobre o Senhor como uma pomba e aí permaneceu,habitando somente em Cristo de maneira plena, total e sem nenhuma limitação, e inclusive, com toda a sua abundância e redundância, para que Dele todos nós pudéssemos receber como que gotas de Graça,permanecendo intata nele toda a fonte do Espírito Santo, como se da plenitude do Espírito que habitava em Cristo partissem muitos pequenos riachos de dons e de operações. 4
Minha hipótese de que aquela medalhinha virasse moda foi confirmada!Muitas mulheres (e quem sabe homens também) estão usando. Não está errado usar, absolutamente não é essa minha constatação!Esta inferência servirá apenas para desejar que com a mesma ânsia apressada de estar na moda do “mundo” conclamo a que todos queiram estar na “moda” de uma espiritualidade verdadeiramente pentecostal, promovendo a chamada “Cultura de Pentecostes”. Quem sabe assim, as minhas irmãs “Peruas” não se transformassem idilicamente em pombas... (do Espírito Santo é claro!!!).

Fonte: RCC Rio de Janeiro

 Como saber se somos luz?

“Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade. Procurai o que é agradável ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente. Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz." Ef 5, 8-13
Proceder dos filhos de Deus
Nós costumamos ler esta passagem para justificar a nossa atitude ao denunciar as coisas erradas que os outros fazem, porém esquecemos um detalhe muito importante: só quem é luz pode lançar luz sobre as circunstâncias e sobre os outros. Se a treva tem a pretensão de lançar luz, ela só lançará mais trevas, gerará confusão, discussões, julgamentos arbitrários e divisões.
Como saber se somos luz?  Como saber se temos autoridade espiritual para denunciar o erro? Essa passagem de Efésios nos esclarece, ao dizer: o fruto da luz é bondade, justiça, verdade. Se estivermos agindo com bondade, realmente querendo a edificação dos outros e não estamos agindo por vingança, por despeito, para ver os outros se darem mal, então estamos na luz. Se estivermos agindo com base na verdade e não nos boatos, nas suposições, nos preconceitos, então estamos na luz. Se formos justos, dando aos outros o direito que eles têm à dignidade e ao respeito, então estamos na luz. Estamos na luz quando seguimos os ensinamentos daquele que á a Luz, a Verdade, a Vida, quando o amamos e colocamos sob seu Senhorio toda a nossa vida.
Devemos denunciar as obras das trevas, não nos calarmos, mas lembremos: a luz só se derramará sobre a situação denunciada se nós formos luzes. Para os seguidores de Jesus Cristo é assim, tudo deve ser feito com coerência de vida e testemunho, com profunda adesão ao evangelho e com temor de Deus.
ORAÇÃO: Senhor, envia teu Espírito para santificar as motivações do meu coração e as justificativas que eu dou para fazer as coisas. Que eu possa sempre ter como justificativa dos meus atos o desejo de fazer a tua vontade, segundo a tua Palavra e os teus ensinamentos. Que o Espírito Santo revelador venha em todos os momentos me revelar como a tua Palavra se coloca diante das situações e explica os acontecimentos. Amém.
Por: RCC Brasil 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Diante do mal está o bem

Este versículo do livro do Eclesiástico como todas as outras passagens da Bíblia, nos faz pensar e nos pede um posicionamento perante a vida.
Diante do mal está o bem. Muitas vezes, nos deparamos com o mal na nossa vida, por exemplo, quando alguém propositalmente, para proveito próprio, usando de meios iníquos nos prejudica ou a alguém que nós amamos, ou fala mal de nós, ou nos humilha. Qual seria o bem que está diante desse mal? A NOSSA ATITUDE. Se a nossa atitude for de perdão, se não ficarmos falando mal dessa pessoa aos outros, mas se calarmos em oração, isto é, silenciarmos e pedirmos a misericórdia de Deus para essa pessoa que agiu mal, estaremos colocando o bem diante do mal. E daí, o bem que vem de Deus alcançará a nossa vida. Será o Bem aliando-se ao bem. O Bem com letra maiúscula é aquele que vem de Deus e o bem que reflete esse Bem Maior que vem de Deus é o bem que nós praticamos em resposta ao mal com que nos deparamos.
São Paulo nos exorta em sua carta aos Romanos: “Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem.” (Rm 12, 21)
Portanto, se quisermos o amor e a misericórdia de Deus se derramando sobre nossa vida, não paguemos o mal com o mal. Quem age mal se alia ao mal e cedo ou tarde pagará um preço por isso.
São Pedro nos recorda: “Aqueles que sofrem segundo a vontade de Deus encomendam as suas almas ao Criador fiel, praticando o bem.” (1Pe 4, 19).

 Maria Beatriz Spier Vargas


Escolhida nova data para o lançamento oficial da logomarca JMJ RIO2013

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jmjnovaEstá confirmada a nova data do lançamento oficial da logomarca da Jornada Mundial da Juventude (JMJ RIO2013). A cerimônia será realizada no dia 7 de fevereiro, às 20h, no auditório do Edifício João Paulo II, na Glória, onde fica a sede do Comitê, e contará com a presença de mais de 100 bispos de todo o Brasil, além de autoridades e representantes da sociedade.
Na ocasião, o presidente do Comitê Organizador Local (COL/Rio) e arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta, irá apresentar também o autor da logo, que foi escolhida através de concurso.
A expectativa é grande em torno da divulgação do símbolo de um dos maiores eventos que o Brasil irá sediar. Para aumentar a ansiedade e curiosidade, na véspera do evento, dia 6, o Cristo Redentor será iluminado com as cores de 150 países que deverão participar da JMJ RIO2013. Com isso, o próprio “embaixador” da Jornada fará o convite aos jovens do mundo inteiro para conhecerem a logomarca.
O lançamento, previsto anteriormente para o dia 1º de fevereiro, foi adiado em atenção e solidariedade a todos os familiares das vítimas do desabamento dos três prédios no Centro do Rio, na última quarta-feira, dia 25 de janeiro. Em nota, dom Orani manifestou seu pesar e conclamou a todos que rezem pelos falecidos, feridos e famílias atingidas pela dor que também é de toda a Arquidiocese. Durante a cerimônia de lançamento da logo, será feito um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da tragédia.
POR: CNBB