quinta-feira, 30 de maio de 2013

Por onde anda Pe. Roberto Lettieri?

Pe. Roberto Lettieri é o sacerdote fundador da  Fraternidade Filhos da Probreza do Santíssimo Sacramento que ficou conhecida como Toca de Assis. O padre pregava retiros por todo o país e tornou-se afamado de santidade pela piedade com a qual celebrava a Missa. Desde 2008, no entanto, afastou-se da mídia e não se apresenta publicamente, bem como não dirige mais sua fundação.
Diante da pergunta onde está padre Roberto e das inúmeras especulações que surgiram em torno de sua imagem, a irmã Maria Madalena, OCD, escreveu uma carta que foi replicada no blog Guarda Roupa esclarecendo, em partes, a situação do religioso.
No início  Freira relata o pesar pelas mentiras ditas e espalhadas sobre a situação do padre. Muitas davam conta de desequilíbrio mental. “Isto é uma afirmação muito GRAVE E MUITO SÉRIA, a que não tem confirmação nem no comportamento dele nem em laudos médicos. É muito triste difamar um Ministro do Senhor com estas e outras acusações falsas e pesadas”, escreve a religiosa.
Espalhou-se que pe. Roberto não celebrava mais a Eucaristia. Mentira, segundo a irmã. “o Padre nunca deixou de celebrar a Santa Missa um só dia. Não foi suspenso das Ordens, e celebra da mesmíssima forma do seu costume, TODOS OS DIAS, na capela da Bom Pastor. Os poucos filhos que participam percebem que celebra com o mesmo ardor, fervor e amor de sempre o Santo Sacrifício, com a mesma duração, como se tivesse diante de 10.000 pessoas! Muito embora, nunca tenha se importado com a quantidade de pessoas presentes”, desabafa.

“acusação”
Em seguida a freira explica qual seria a “acusação” com fundo de verdade feita contra o sacerdote. “A única “acusação”, se eu posso usar essa palavra, está em que “levou o povo a idolatrar sua própria imagem”, diz e relata as consequências. “por causa disso alguns bispos pediram que não se apresentasse em manifestações públicas. E por fim, com o desenrolar do discernimento da Igreja, na semana retrasada, D. Bruno pediu que o Conselho dos Irmãos administrasse o Instituto masculino, colocando à frente o Ir. Gabriel, por 1 ANO. Já o ramo feminino continua tendo à frente a Ir. Maria dos Anjos”, esclarece.
Na sequência da carta irmã Maria Madalena expressa a tristeza pela situação do fundador mas relembra que não é o primeiro a ficar afastado de sua fundação na história da igreja.  A conjuntura pode ser um desígnio divino que eleva alguns às honras da cruz. “.Foi um desígnio de Deus que o Pe. Pio não celebrasse mais publicamente, porque era grande o incômodo que aquela multidão causava na capela, no convento e na cidade? Sim, certamente. Foi um desígnio de Deus que Santa Paulina fosse afastada como fundadora da Congregação que fundou, e proibida de permanecer na cidade da Casa Geral? Sim, certamente. Foi um desígnio de Deus que Santo Afonso de Ligório fosse “expulso” pelos próprios filhos da Congregação que fundou, os Redentoristas? Sim. E não me alongarei a falar da vida daqueles a quem Deus elevou à Cruz, juntamente com Seu Filho Amado. Aqueles que dão frutos, o Senhor poda para que dê mais fruto! Como são as podas da Vinha de Cristo? A Igreja não eleva seus filhos às honras dos altares sem antes ter elevado-os às honras da Cruz. Por isso, mesmo que não entendamos, acompanhemos com reverência o que a Santa Igreja, no momento, determina”, sentencia.
A religiosa termina a carta convidando todos a orar pelos sacerdotes. “Rezemos, caríssimos, pelos sacerdotes, precisam muito de nossas orações…Caminhemos unidos na oração uns pelos outros, segurando a tocha da fé e da confiança em Deus”, conclui.

Aparição na TV
No início deste ano padre Roberto  apareceu em uma reportagem do RJ-TV sobre a ajuda aos flagelados das  enchentes que devastaram Petrópolis e Nova Friburgo. Na ocasião, com semblante de alegria, o sacerdote ajudava às vítimas. “Vou ficar aqui uns dias suficientes, assim que… que for necessário, pra tentar dar a minha parte né, do coração, porque eu não consegui ficar vendo pela televisão somente. Como sacerdote, agente tem que… todos os cristãos, todas as pessoas humanas né, agente setiu no coração isso. Eu vim pra cá e tô feliz, podendo colaborar com o pessoal mais sofrido dessa tragédia” , disse ao repórter.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


Como está a sua fé?


“Como está sua vida de oração?”, “Como está a sua fé?” e “Como você está?”  a fé deve ser alimentada por meio da oração:  “Como fruto da sua fé, você é bom? Seus pensamentos são bons? Suas palavras são boas? Seu coração é bom?”
A fé é um dom que gera frutos, dentre eles felicidade, amor, paz, paciência e amabilidade.
Fundamentado nas palavras do papa Bento XVI, estamos passando por uma desertificação espiritual, por isso, o Santo Padre, impulsionado pelo Espírito Santo, coloca-nos o Ano da Fé para ser propagado pela  Igreja em 2013.
Ele também apresenta a família como o primeiro local de vivência da fé: “Não há como fabricar a fé. Precisamos  cuida-la, cultiva-la, acolhe-la, sobretudo na família, primeira catequista da criança”.
E para abastecer a fé na missão que Deus deu a cada um, a experiência do Amor de Deus deve ser buscada nos Grupos de Oração: “A experiência de Deus é a alma da evangelização, o que não deve ficar só em palavras.”
Ele terminou sua reflexão com uma frase de Santa Benedita da Cruz: “Para onde Deus nos leva ignoramos. Sabemos somente que Ele nos leva” (Edith Stein)

Dom Sevilha
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Vitória/ES,

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Viva Cristo Rei

A criação desta festa tinha uma conotação política de grandiosidade. Quem, dos mais antigos, não foi da Cruzada Eucarística? Roupinha branca, fita amarela com cruz e dois traços azuis para os melhores. Qual era o comprimento? - Viva Cristo! – Rei! Este amor a Cristo Rei sustentou os cristãos na perseguição do México. Quantos mártires não entregaram a vida proclamando: Viva Cristo Rei! Quem sabe nos falte uma definição maior para o Reino de Cristo. 

A oração da missa assim reza: “Deus que dispusestes restaurar todas as coisas em vosso Filho Amado, Rei do Universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade vos glorifiquem eternamente”. Vejamos os termos: Rei do Universo, vossa majestade. Para este sentido endereça a primeira leitura: A glória do Filho do Homem - “Seu poder é poder eterno que não lhe será tirado e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn l7,14). Cristo com sua morte e ressurreição foi feito o Senhor da Glória. Seu Reino não tem fim.

Rei da Verdade. 

Mesmo que seja um reino, o é diferente dos reinos e governos do mundo. Jesus se proclama rei diante de Pilatos: “Tu és Rei?” Pergunta Pilatos diante no tribunal. “Tu o dizes, eu sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (Jo 18,37). Jesus é rei da verdade. Pilatos pergunta-lhe: “O que é a verdade?” Mas não espera a resposta. (É comum em nossa vida perguntar as coisas para Deus e não querer saber a resposta). O que é esta verdade que é a identificação com Ele próprio? “Eu sou a Verdade e a vida” (Jo 14,6). Ser verdade para Jesus é ser Ele próprio o testemunho da vontade do Pai: Estabelecer no mundo o domínio da misericórdia amorosa da qual o Pai é a fonte. “Graças a esta vontade é que somos salvos” (Hb 10.10). Durante sua vida procura unicamente fazer a vontade do Pai: “E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia” (Jo.6,39). 

Um reino de sacerdotes. 

Todo povo de Deus tem, como Cristo esta realeza. Esta é o domínio do amor que transforma o mundo. O amor é a primeira fonte da união com Deus. Ele faz de nossos gestos de serviço aos outros, da transformação das estruturas de escravidão em liberdade, um sacerdócio do povo de Deus e de cada um que santifica o universo. Ser cristão é já construir o reino de Cristo no mundo. A modalidade de construir este reino é o serviço fraterno, humilde como Cristo fez na sua morte que o glorificou. Unindo nossa vontade à sua e a vontade do Pai, podemos crer em verdade que Ele é Rei e Senhor. 

Leituras: Daniel 7,13-14; Apocalipse 1,5-8; João 18,33-37 

Contexto: 

1. A festa de Cristo Rei, instituída por Pio XI, tinha uma finalidade político-religiosa de mostrar o senhorio de Jesus sobre o mundo, acima das situações de ateísmo e falta de religião. Esta festa foi colocada, na reforma litúrgica, no final do ano litúrgico para dar a perceber que Cristo é o centro do universo e para Ele tudo conflui. 

2. Cristo, diante de Pilatos se declara rei da verdade. Ele conhece toda a verdade, por isso dá por ela a vida. A verdade é o desígnio do Pai de implantar no mundo o reino da misericórdia amorosa. 

3. Todo o povo de Deus é sacerdotal, isto é, está unido a Cristo para a transformação do mundo em um mundo que sirva a Deus no culto verdadeiro que procede de um coração que ama.


Eduardo Rocha Quintella

terça-feira, 25 de setembro de 2012


Na Cruz, nossa identidade!

Mais que um simples símbolo, um sinal visual que nos identifica. Na cruz encontramos a nossa identidade de cristãos. Ela é o lugar do sacrifício, da entrega de Jesus por nós e também precisa ser o lugar da nossa experiência pessoal com Ele.


O símbolo adotado pelo Serviço Internacional da Renovação Carismática Católica (ICCRS), conhecido como “A cruz da Renovação” (The cross of the Renewal ), é extraído dos textos bíblicos de Jo 19,34 e 1Jo 5,6. O sangue (Lv 1,5+; Ex 24,8+) testemunha a realidade do sacrifício do cordeiro imolado para a salvação do mundo (Jo 6,51), e a água, símbolo do Espírito, sua fecundidade espiritual.  Na Cruz da Renovação, o símbolo da água que sai do lado aberto de Jesus crucificado, tendo na outra extremidade a imagem da pomba, quer explicitar a compreensão cristã neo-testamentaria  de que Jesus é o doador do Espírito e, por isso, a invocação na parte superior: Veni Creator Spiritus. “O Espírito é, pois, também pessoalmente a água viva que jorra de Cristo crucificado como de sua fonte e que em nós jorra em Vida Eterna”(Catecismo, n. 694). Nesse mesmo sentido, o pregador da Casa Papal, o frei Raniero Cantalamessa, escreveu:

 Quando invocamos o Espírito, não devemos olhar para o céu ou talvez para outro lugar; não é de lá que vem o Espírito, mas da cruz de Cristo! É ela a “rocha espiritual” da qual esta água misteriosa é derramada sobre a Igreja para dessedentar os crentes (cf. 1Cor 10,4). Como a chuva que desce do céu é recolhida no interior de uma montanha, até que encontra uma passagem para fluir, assim o Espírito, que durante a sua vida terrestre desceu e se recolheu todo em Jesus de Nazaré, sobre a cruz encontrou uma “passagem”, uma ferida, para derramar-se sobre a Igreja e ele pode dizer, referindo-se precisamente a este seu Espírito: Quem tem sede venha a mim e beba (Jo 7,37).

A imagem ajuda a colocar em evidência o dado teológico em que “a Páscoa de Cristo se realiza na efusão do Espírito Santo, que é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina: de sua plenitude, Cristo, Senhor, derrama em profusão o Espírito.” (Catec. 731).

De acordo com a narrativa feita por São Lucas nos Atos dos Apóstolos, a vinda do Espírito acontece no dia de Pentecostes, na sala do cenáculo, em Jerusalém (At 2,1-4). João evangelista também faz referência desse mesmo espaço como sendo o lugar em que Jesus “sopra” sobre os discípulos para que recebam o Espírito Santo (Jo 20,22). Esse mesmo evangelista, com sutileza teológica, parece querer nos presentar o calvário, ou mais precisamente, a cruz como lugar de onde acontece o derramamento do Espírito (cf. Jo 19,34). A cruz, dolorosa realidade, onde ocorre o sacrifício pascal do Cordeiro de Deus, é também e, sobretudo, “instrumento de redenção, de reconciliação e de aliança”.  O lenho seco da cruz, uma vez encharcado pelo sangue do Cordeiro e pela água que brota do coração aberto de Jesus, pode agora florescer, como árvore plantada à beira daquele rio que recebe suas águas da fonte que jorra do Templo, a que se referia o profeta Ezequiel no Antigo Testamento (cf. Ez 47,12). Sim, é do Templo-Corpo de Jesus Cristo (cf. Jo 2,21) que jorra a verdadeira água viva!

A LINGUAGEM DA CRUZ

“O sinal-da-cruz assinala a marca de Cristo naquele que vai pertencer-lhe” (Catec. 1235). Não há católico que não queira trazer consigo, de algum modo, uma cruz como sinal de sua catolicidade. O estranho é perceber que quando o sinal se transforma em realidade, muitos cristãos recusam-se a admití-la em suas próprias vidas. Quando o sofrimento bate à nossa porta e somos atingidos por alguma enfermidade ou quando as perseguições se levantam contra nós e nos tornamos alvo de humilhações, como reagimos?

É bem verdade não ser tão fácil entender “a linguagem da cruz” (1Cor 1,18). Há, ainda hoje, quem se escandalize com a cruz (cf. Gl 5,11). Quantas vezes ouvimos irmãos argumentarem em suas orações: “Por que comigo, Senhor? Eu sou teu servo. Tenho sido fiel em tudo o que o Senhor tem me pedido... Por que tenho que passar por esse sofrimento?” Parece que a cruz para alguns continua sendo apenas instrumento de suplício. Talvez ainda não tenhamos compreendido a linguagem redentora da cruz.

A cruz não é somente um objeto-sinal de identificação. Em seu sentido espiritual, ela representa o lugar do sacrifício, onde Deus, o Pai das misericórdias, demonstra todo o seu amor pela humanidade. A cruz é lugar de entrega. Deus Pai entrega o Filho; Deus Filho entrega o Espírito; Deus Espírito é dado para a humanidade. A cruz, lugar do sacrifício, torna-se então lugar da auto-entrega amorosa de Deus.
É comum, durante alguns momentos de oração, o dirigente nos convidar para que nos aproximemos da cruz do Senhor. De bom grado o fazemos. Mas, no dia a dia, quando a cruz se aproxima de nós com toda a sua verdade, queremos logo nos ver livres dela. O demônio foge da cruz, o cristão deve correr para ela. Muito sabiamente escreveu o autor do livro Imitação de Cristo: “Por que temes, pois, tomar a cruz pela qual se vai ao céu? Na cruz estão a salvação e a vida; na cruz a proteção contra nossos inimigos. E ainda: da cruz manam as suavidades celestiais; na cruz estão a fortaleza da alma, a alegria do coração, o compêndio da virtude, a perfeição da santida.” (Cap. XI-XII).

AMIGOS DA CRUZ DE CRISTO

O apóstolo Paulo repreendeu àqueles que se comportavam como se fossem “inimigos da cruz de Cristo” (Flp 3,18). Eram pessoas preocupadas somente em viver bem, na fartura dos alimentos, sob a aparência de perfeição, e que pensavam somente no que está sobre a terra (Flp 3,19). De fato, para quem tem depositado suas esperanças em Cristo somente para esta vida (1Cor 15,19), a cruz representa um inimigo a ser desprezado. Afinal, ela priva-nos de todo imediatismo e de qualquer desejo pelo gozo na riqueza temporal. Em sua horizontalidade, a cruz abraça os pobres, sofredores, injustiçados. Em sua verticalidade, fincada na realidade da terra, ou seja, da verdade da vida, ela aponta para o céu, lugar do Reino definitivo.

Perguntamos: onde se encontram os amigos de Jesus? Na multidão, enquanto os milagres acontecem, ou no calvário, junto de sua cruz? “Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do Cálice de sua paixão. Muitos admiram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz” (Im. Cristo, cap. XI). Enquanto estamos no meio da multidão, esperando por algum milagre ou até já desfrutando dele, aproveitemos para nos aproximar daquele que caminha para cruz: Jesus Cristo. É lá, no alto do calvário, junto à sua cruz que se consolida a verdadeira amizade.

Havia amigos de Jesus que não puderam estar no calvário no dia de sua crucifixão. Alguma coisa os impediram de estar lá. Nós não o sabemos. Pode ter sido o medo ou qualquer outra circunstância justificável. De qualquer forma, era preciso que em algum momento eles passassem pela cruz. Foi assim com os Apóstolos. Cada um, a seu modo, se tornou amigo da cruz. Tem sido assim na história dos santos que nos precederam. Chegou então a nossa vez de nos comportarmos como amigos da cruz de Cristo! A água do Espírito que recebemos por meio do batismo deve trazer-nos coragem para sustentar na própria vida o sinal-da-cruz. E sempre que formos introduzidos em algum novo calvário, façamos daquele lugar, lugar de experiência de Deus. Aproveitemos para beber nesse momento, não do fel que nos privaria de sofrer com Jesus, mas da água que continua a brotar do lado aberto de Nosso Senhor, da água da vida: o Espírito Santo.

EM DESTAQUE

“De fato, para quem tem depositado suas esperanças em Cristo somente para esta vida (1Cor 15,19), a cruz representa um inimigo a ser desprezado”

“Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do Cálice de sua paixão. Muitos admiram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz”

 Rogério Soares
Coord. Estadual da RCC-SP e Coord. do Grupo de Reflexão Teológico Pastoral RCC-Brasil

segunda-feira, 11 de junho de 2012


Só a radicalidade tem sentido


“ Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: ‘Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe,sua mulher,seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, sim, até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo. Quem de vós querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, afim de ver se tem com que acabá-la? Para que,depois que tiver lançado os alicerces, e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele,dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar. Ou qual é orei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
O sal é uma coisa boa; mas se ele perder o sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para o adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir, ouça!”

 Naquela época, a radicalidade evangélica era – como será sempre em nossa vocação – essencial. Além de essencial, porém, era viva, muito viva. Viva e vivenciada sem descuido, à risca. Significava, antes de qualquer coisa, uma verdade evidente, embora tantas vezes descurada:
Seguir Jesus é deixar tudo e todos. Deixar todo o resto.
Deixar todos os outros que não Ele.

 Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
 Como isso era vivo para nós, os primeiros! Éramos os primeiros a sermos chamados a, literalmente, deixar para trás pai, mãe, mulher, marido, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida. Ninguém antes de nós havia deixado tanta coisa para uma aventura completamente inesperada.
Hoje, sabemos muito bem o que é uma Comunidade Nova. João Paulo II falou desta realidade no Pentecostes de 98 em plena Praça de São Pedro e em seus documentos. A Igreja, hoje, reconhece várias comunidades novas a nível pontifício e a nossa está em processo de reconhecimento. Nosso fundador é convidado para o Sínodo sobre Eucaristia, para importantes eventos no Pontifício Conselho dos Leigos e para o lançamento do documento papal Deus Charitas Est.
Naquela época, iniciávamos uma aventura rumo ao desconhecido. Não sabíamos para onde estávamos indo, nem se a Igreja nos acolheria. Pelo contrário, por toda parte nos chamavam de loucos e setores da Igreja, alguns muito ligados a nós, desencorajavam nossa opção e não nos poupavam de perseguições e falatórios.
Deixávamos tudo por uma incerteza. Trocávamos nossos queridos por uma incógnita. Abandonávamos nossos estudos e trabalhos por uma aventura. Era isso, sim, mas aos olhos dos homens. Aos olhos de Deus – e, creia, naquela época estávamos cheios de Deus, cheios de entusiasmo, dispostos a dar a vida por Jesus! – aos Seus olhos e aos nossos, deixávamos todos e tudo por... Jesus, o Ressuscitado, o Cristo Vivo que havíamos experimentado no Batismo no Espírito Santo e que, através do Moysés nos propunha um seguimento radical, ainda que não soubéssemos para onde íamos ou se receberíamos alguma coisa em troca do que havíamos deixado. Era a fé a nos dar a certeza do incerto; a esperança a nos dar a certeza de que Deus tinha planos para nós, a caridade a queimar nosso coração de amor esponsal.
A exigência de Deus era clara: era preciso deixar tudo. A pregação do Moysés, muito explícita: a vocação Shalom exigia o deixar tudo, supunha o seguimento radical de Jesus Cristo. E isso ele pregava veementemente ungido, na pequena sala da República do Líbano para os seus cinco primeiros discípulos.
E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.
Como sempre, estava presente a eterna discussão acerca do que seria esta cruz. Em sua pregação, o Moysés deixava claro: era crucificar nossos planos, nossos desejos, nossa vontade, nossas afeições desordenadas, nosso amor a nós mesmos; crucificar tudo o que não fosse Jesus. Carregar tudo isso como uma cruz, renunciando a todo direito pelo privilégio incomparável de ser discípulo de Jesus.
Hoje em dia, de vez em quando me pego a comparar a qualidade do seguimento de Jesus que eu tinha naquela época e que tenho hoje. Que diferença! Hoje, cercada de seguranças, será que ainda é por Jesus que deixo tudo? Será que ainda carrego a cruz de morte de minha carne, desejos, planos, vontade, afeições desordenadas, amor a mim mesma? Cercada de milhares de irmãos pelo mundo inteiro, contando com o aval da Igreja e o reconhecimento da RCC, ainda vivo a radicalidade evangélica que requer absolutamente a prioridade radical de amor a Jesus Cristo deixando tudo e todos para trás?
Hoje, paparicada em meio a palestras, cursos, livros, rádio, tv, ainda mantenho a radicalidade de deixar tudo, absolutamente tudo para ser unicamente de Jesus e para segui-lo radicalmente, isto é, para ser radicalmente igual a ele? Cercada pelas estruturas da Obra e da Comunidade, tendo a identidade do Carisma melhor definida, com os pés nos Estatutos e nas Regras reconhecidas, já sabendo de onde vim e para onde vou, mantenho o mesmo nível de radicalidade, de amor esponsal, de desejo ardente de ser pobre como Jesus, casta como Jesus, obediente como Jesus, Paz como Jesus?
A grande surpresa da pregação do Moysés, entretanto, viria com o texto a seguir. Aliás, foi por este trecho que ele iniciou seu ensino, só depois voltando ao início da passagem. Vejamos:
Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários a fim de ver se tem com que acabá-la? Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar. Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.
Tínhamos muito em mente que nos metíamos em uma batalha espiritual que duraria enquanto vivermos. O Moysés, por sua vez, deixava claro quem eram os inimigos que iríamos combater: a nós mesmos, nossa carne, nossos desejos, nosso amor próprio, nossos planos, nossas concupiscências, nosso desejo de ser como o mundo, nossa vontade de voltar atrás. Seria uma batalha desigual: dez mil contra vinte mil do inimigo.
“Quem amar a si mesmo”, dizia ele, “mesmo que seja só um pouco, não tem chances de vencer a batalha. Vai ter sempre a tentação de enviar embaixadores ao inimigo para conversações em vistas de uma falsa paz, de uma paz passageira que o inimigo e o mundo podem dar. No entanto, quem decidir não amar a si mesmo acima de Jesus, do mundo e de seus queridos, continuará na batalha, mas encontrará a Paz que é o próprio Jesus e que só ele dá. Cristo é a nossa paz!”, finalizava ele, citando passagem que, na época tínhamos como o texto de nossa vocação, uma vez que o Espírito não nos havia ainda inspirado e explicado Jo 20,19, o que só viria a ser registrado quando da elaboração dos Estatutos.
Hoje, vinte anos depois, é fácil constatar como ele tinha razão e como era profético seu ensinamento. Vemos que aqueles que antes de entrar para a comunidade tomaram a decisão pelo seguimento radical de Jesus Cristo têm nela o alicerce de sua casa e a vitória de sua batalha. Muitos, porém, que entram por fantasia ou com outras motivações, não terminaram de construir a casa ou acabam por contemporizar com o inimigo e com o mundo. Pouco a pouco os projetos pessoais, os desejos não crucificados, a amizade com os valores do mundo corroem seus poucos tijolos e tiram a força de seus soldados.
Uma blusa com ou sem manga, uma comunhão de bens doada ou retida, uma saída à noite para um lugar devido ou indevido, de per si parecem inofensivos. Vistos sob a perspectiva da radicalidade evangélica que nossa vocação exige, porém, tornam-se arma de batalha, argamassa forte que une tijolos sem deixar brechas. Uma simples renúncia a uma cava, à compra de um bem supérfluo, a uma diversão mundana, pode fazer a tremenda diferença entre uma vocação vivida até o final da vida ou abandonada pela metade da caminhada.
Decidir-se a não contemporizar ou, para utilizar a linguagem de São Paulo, não ter amizade com o mundo, com nossos projetos pessoais, com nossa carne, com as concupiscências, é o passo essencial para quem quer viver a vocação Shalom que exige, absolutamente, a radicalidade evangélica. Sem a radicalidade evangélica, sem o seguimento radical de Jesus em sua maneira de viver, em sua pobreza, obediência, castidade não existe a vivência da vocação Shalom. Sem seguir radicalmente a Jesus em sua incansável parresia; em seu tomar a cruz, renunciando, ao tomá-la por amor, a todos os seus direitos de Deus e de homem, não se vive a vocação Shalom.
A grande tentação é contemporizar. Tentar harmonizar o seguimento de Jesus e os projetos pessoais, gostos, desejos, reivindicações de direitos, desobediência velada, pobreza aparente, castidade mitigada. Sim, esta é a grande tentação. Ela começa a aparecer sorrateiramente, disfarçada de boas intenções e se instala em uma vivência morna e mitigada que ameaça a vocação de todos. Tudo o que é morno, tudo o que é mitigado, tudo o que é contemporizado vai de encontro à nossa vocação. Isso o Moysés já havia deixado bem claro ao escrever Obra Nova com sua admoestação aos covardes e sua exortação à radicalidade e à renúncia até o sacrifício dos belos galhos verdes.
Nos inícios, era bem mais fácil enxergar os perigos, contar os dez mil inimigos que ultrapassavam nossas tropas, contabilizar a quantidade de tijolos, medir a resistência dos alicerces. Com o crescimento da comunidade, tudo isso se dilui e nos coloca na contingência da re-escolha da radicalidade absoluta. Como finalizou o Moysés, há vinte anos:
Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
Você não conseguiria ouvi-lo dizer:
“Assim, pois, isto é, desta forma e somente desta forma, não de outra forma, mas desta forma, qualquer um de vós – qualquer um, você ou eu, qualquer um de nós – que não renuncia a tudo, tudo, não a metade, não a uma parte, mas tudo, tudo o que tem, tudo o que é... tudo! Não pode ser discípulo de Jesus. Não tem como segui-lo. Não tem como ser como Ele, que deixou tudo para seguir a vontade do Pai. Não tem como viver a magnífica vocação que Nosso Senhor nos deu! Esta vocação exige, exige a radicalidade evangélica, exige o sacrifício de nós mesmos, de tudo o que somos e temos, exige o seguimento radical de Jesus Cristo Nosso Senhor.
Por isso, pense bem antes para não desistir depois. Conte seus tijolos, verifique sua argamassa, conte suas tropas e jamais, jamais contemporize com o mundo, com a carne, com o mal, com você mesmo! Jamais! Do contrário, o sal perderá o seu sabor, pois:
O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora.
Não percamos nosso sabor. Ele não é nosso. É de Deus. É Deus quem no-lo dá. Não percamos a radicalidade evangélica. Do contrário, nossa vocação não servirá para a nada, nem para nós mesmos, nem para a humanidade e acabaremos, nós mesmos, por lançá-la fora, por desperdiçá-la tristemente.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Amém. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Emmir Nogueira
Co-Fundadora da Comunidade Católica Shalom

segunda-feira, 5 de março de 2012


Precisamos do Espírito Santo.


Que é o homem sem o Espírito de Deus? Obra morta condenada ao fracasso, corpo sem vida. É o Espírito Santo que possibilita ao homem a reinstalação no paraíso, a subida de novo aos céus, o retorno a adoção de filho. Ele que nos permite chamar Deus de Pai, que nos faz adentrar no mistério de Cristo morto e ressuscitado, nos faz tomar parte na glória.
Esta é a mística de Pentecostes: Deus em nós! O Espírito de Deus é enviado ao nosso espírito. Isto é a graça! Deus mora em nós e nos possibilita a viver como homens espirituais!
Ele é o Consolador perfeito e o Advogado dos pobres! O ardor poderoso do Espírito retira as almas tíbias do abismo da morte. Ele é, conforme a mais antiga definição de fé da Igreja, o “Senhor que dá a Vida”.
Espírito escondido na criação, anunciado pelos profetas, prometido por Cristo é o mesmo Espírito derramado em abundância sobre os apóstolos e a Igreja que nascia como nos descreve o Livro dos Atos dos Apóstolos. Pentecostes não acabou! É um movimento divino permanente! Enquanto houver um homem que precise da força de Deus, o Espírito deseja ser derramado sobre esta alma. Espera apenas um convite: “Vem!”
Nossa união com o Espírito Santo é absolutamente real, a tal ponto de tornar-se Ele verdadeiramente “nosso”. Ser movido pelo Espírito é, com efeito, atingir uma intimidade com Cristo e o Pai, que de outra maneira nunca seria adquirida. É preciso aproveitar este derramamento do Espírito e este tempo pentecostal que vivemos tão fortemente na Igreja de Cristo no início deste novo milênio. Visitados, inundados e transformados pelo Espírito queremos sempre permanecer.  Como a Beata Elena Guerra, queremos orar: “Que minha vida seja um constante nascer e renascer no Espírito”.
Aproveite bem o Pentecostes que Deus vai derramar este ano sobre você. Este é o meu desejo!
Pe. Dudu

quinta-feira, 1 de março de 2012


Os desejos do nosso coração

 “Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá.”Sl 36,4
Muitas vezes, quando lemos esse versículo do salmo, pensamos que ao colocarmos no Senhor a nossa alegria e gratidão, Ele vai atender nossos desejos e realizar nossos sonhos e, muitas vezes, Ele faz isso mesmo. Mas, o que esse versículo expressa é muito mais do que apenas isso. Não se trata aqui de nos alegrarmos no Senhor e depois fazer tudo o que queremos, é muito mais bonito e mais profundo do que isso. Se nós colocarmos nossas delícias no Senhor, se fizermos Dele a alegria da nossa vida, então Ele mudará o nosso coração para que os nossos desejos se tornem os Dele. Em outras palavras, Ele colocará seus desejos em nosso coração. Nós precisamos disso na nossa vida, pois os nossos desejos, às vezes, são vãos, são gerados pelo pecado em nós ou são limitados e pequenos.
Os desejos do Senhor para a nossa vida são perfeitos, porque fazem parte do seu plano de amor para nós. Eles são infinitamente superiores e mais bonitos do que tudo o que podemos imaginar, como nos diz a passagem em Isaías 55, 8-9: Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos.
Li, certa vez, um testemunho bonito de David Mangan sobre esse versículo bíblico. Ele é um dos que estavam em Duquesne naquele fim de semana do início da Renovação Carismática e até hoje ele continua cheio do Espírito, frequentando Grupo de Oração, pregando a Palavra de Deus e dando bom testemunho. David disse que esse versículo significa muito para sua vida pois enquanto ele se deliciava com o Senhor, buscando fazer sua vontade,  se apaixonou por aquela que hoje é sua esposa. Então, conforme sua compreensão, o desejo, o amor que começou a sentir por ela foi colocado no seu coração pelo Senhor. Por isso, ele mandou gravar esse versículo nas suas alianças, para nunca se esquecer de quem sua esposa é para ele: desejo de Deus colocado no seu coração.
Que possa ser assim também conosco. Coloquemos todo o nosso amor, o nosso louvor, a nossa confiança no Senhor, passando todos os dias um tempo em oração com Ele, deliciando-nos na sua presença e deixemos que Ele vá colocando os seus desejos no nosso coração e teremos assim a nossa vida grandemente abençoada.
Fonte: RCC Brasil